2º Comunicado de imprensa (depois da acção)

Movimento Verde Eufémia: Reacções às notícias de imprensa

Nós, como Movimento Verde Eufémia, gostaríamos de responder a alguns dos artigos que apareceram na comunicação social nacional acerca da nossa acção envolvendo o corte de uma pequena parte do primeiro cultivo transgénico na região do Algarve. Consideramos que os leitores foram privados de várias informações e alguns equívocos foram criados.

Antes de mais, a nossa decisão de aplicar estratégias de acção directa e desobediência civil, que podem ser entendidas como radicais, só pode ser compreendida à luz da corrente situação referente aos OGM em Portugal.

Toda a região Algarvia foi a primeira zona livre de transgénicos em Portugal, depois de declarada pela Junta Metropolitana do Algarve, em 2004. Isto significa que todos os concelhos do Algarve se opuseram ao cultivo de OGM na agricultura. Esta medida foi tomada com forte apoio de associações ambientalistas locais e nacionais, de agricultores e de cidadãos. Mesmo assim, foram introduzidos na região cultivos transgénicos por iniciativa privada de um agricultor.

Se o Estado legal é incapaz de proteger o bem comum, julgamos que os movimentos civis necessitam organizar-se e actuar com consciência e responsabilidade, para repôr a ordem necessária. No nosso entender, foram esgotadas todas as medidas políticas e judiciais na tentativa de defender os direitos de bem-estar, sociais e ambientais dos seus cidadãos , o que levou a considerarmos como única restante opção a aplicação de estratégias que vão para além das fronteiras legais. Estratégias de desobediência civil tornaram-se uma ferramenta necessária para produzir mudanças adequadas.

Na história dos OGM, as políticas e leis da Comissão Europeia e do Governo Português claramente não têm servido o interesse dos seus cidadãos. Destaca-se o último regulamento comunitário sobre a certificação de Agricultura Biológica, em que os produtos podem conter até 0,9 % de transgénicos, o que entendemos ser uma violação dos direitos do consumidor, dado que este tipo de produtos certificados era até agora a única garantia que os consumidores tinham para escolher alimentos livres OGM. Foi também provado que estes organismos são uma ameaça para a saúde dos seus consumidores, para o ambiente e comprometem os direitos sociais dos agricultores que escolhem cultivar OGM’s, bem como de quem pratica agricultura convencional e biológica.

Vários estudos independentes têm vindo a atestar os argumentos que o Movimento Verde Eufémia apresenta:
- quebras de produção de culturas transgénicas, comparadas com as convencionais, levando ao pagamento de indemnizações pelas empresas de biotecnologia (Monsanto vs. US Farmers, Relatório do Centro para a Segurança Alimentar- CFS, 2005);
- aumento de custos de produção com o uso de pesticidas, perante o surgimento de insectos resistentes, super-pragas ou pragas secundárias (The Case for a GM-Free Sustainable World, Independent Science Panel, Junho de 2003) e com a impossibilidade de guardar sementes para os anos seguintes, necessitando de as comprar anualmente;
- aumento de custos de produção nas práticas convencionais e biológicas com as estratégias para travar a fácil contaminação por transgénicos (Al grano: Impacto del Maiz trangénico em Espana. Relatório da Greenpeace e Amigos de la Tierra, Agosto 2003);
- multas e condenações imposta aos agricultores, pelas empresas de biotecnologia, que viram as suas culturas contaminadas, por culturas transgénicas vizinhas ou por voltarem às práticas convencionais, depois de uso de sementes geneticamente modificadas (Monsanto vs. US Farmers, Relatório do Centro para a Segurança Alimentar- CFS, 2005);
- diminuição da fertilidade, tempo de vida e até morte de gado alimentado com produtos transgénicos (Mortality in Sheep Flocks after Grazing on Bt Cotton Fields Warangal District, Andhra Pradesh. Report of the Preliminary Assessment, Abril 2006).

Estes factos indicam-nos que as políticas de Portugal e da UE referentes à produção e comercialização de transgénicos, em nosso entender, servem os interesses da indústria OGM e não os dos cidadãos, que por elas deveriam ser protegidos.

Além disto é necessário sublinhar algumas das afirmações proferidas pelo agricultor José Menezes que declara “morrer à fome” se o seu campo fosse ceifado. São necessárias pelo menos algumas correcções. O agricultor é conhecido por usar agricultura intensiva de larga escala já desde há vários anos e de plantar OGM apenas desde há 1 ano. Isto é de facto uma contradição, já que a larga maioria dos agricultores em Portugal usa métodos tradicionais e de pequena escala, e não parecem ter grandes problemas em se auto-sustentar.

Relembramos que a superfície destruída certamente não ultrapassou 1 hectare num campo de 50 hectares, pelo que a perda de lucro não debilitará a sua sobrevivência futura. É importante também realçar que nas várias tentativas de estabelecer diálogo com o agricultor, lhe foram oferecidas pelo Movimento Verde Eufémia sementes biológicas equivalentes a toda a sua produção, caso pretenda abandonar o cultivo transgénico.

Seguidamente, não entendemos em que factos são baseados as alegações de que alguns dos manifestantes tenham usado violência física contra o agricultor. Repetimos, tal como no primeiro comunicado de imprensa, que não temos qualquer intenção de prejudicar o agricultor de qualquer forma, especialmente renunciando à agressão física. Embora seja possível de certa forma entender a reacção mais emocional por parte do agricultor e dos seus colegas durante a acção, na tentativa de proteger da ceifa a propriedade cultivada, foram no entanto os activistas os atacados fisicamente de forma agressiva pelos agricultores, como se pode ver em filmagens televisivas. Os nossos princípios de acção como Movimento Verde Eufémia são claros: uma atitude de não-violência perante seres vivos e estratégias de redução da intensidade de conflitos que surjam durante a acção. Desta forma negamos categoricamente que qualquer violência física tenha sido aplicada por qualquer dos activistas.

Realçamos também as palavras do comandante Bengala da GNR confirmando que “tudo correu de forma civilizada”. Gostaríamos de elogiar a forma adequada em como a autoridade actuou à chegada ao local depois da ceifa simbólica terminada e se deparou com os activistas saindo do campo por sua própria iniciativa, embora atacados fisicamente pelos agricultores.

Lembramos que há apoio da população local e de agricultores biológicos à intenção de manter a região do Algarve livre de contaminação transgénica.

Esperamos que depois desta reacção, alguns pontos tenham ficado clarificados. Depois deste comunicado, esperamos também que mais cidadãos se levantem em nosso nome e ceifem outros campos transgénicos em Portugal.

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5 Responses to 2º Comunicado de imprensa (depois da acção)

  1. João Vaz says:

    Boa boa.. é preciso defender as Acções. Farto de ouvir pessoas a falar mal do “bando” de jovens que foi destruir o campo de milho trangénico… Como é possível que as Pessoas SEJAM TÃO IGNORANTES!!! Finalmente vão existindo estes comunicados, só espero que os portugueses o leiam bem! Precisamos dar a volta ao PODER, que existe apenas com a finalidade de controlar e adormecer a população, enquanto grandes e decisivas decisões são tomadas!! Abaixo o Governo, abaixo os Sintéticos! Bom trabalho

  2. Paulo Dias says:

    Concordo plenamente com o texto…só que é manchado, no final com o incentivo a mais invasões de propriedades privadas. Neste ponto não concordo.
    Lembro que o alvo, não pode ser um agricultor por mais pequeno que seja, mas sim quem produz ou quem comercializa e quem autoriza.
    É preciso informar a população. Criar debates publicos (TV)
    Deixo a ideia: que tal promoverem um debate publico na TV???

  3. Dário Agostinho says:

    Compreendo e apoio a vossa causa mas a vossa acção em Silves foi criminosa e miserável. Espero que paguem pelo que fizeram e sempre que actuarem assim. A vossa actuação, reflexo da vossa mentalidade, é basicamente fundamentalista. Isso é meio caminho andado para que sejam vistos apenas e só como um bando de hippies anarquistas. Em vez de terem consigo o alerta para uma questão grave, conseguiram apenas ganhar a incompreensão da maior parte das pessoas. O efeito foi contraproducente. A vossa falta de tolerância só merece como reposta a intolerância para com o vosso movimento. E se são tão pragmáticos assim porque brincam aburguesadamente com o eufemismo da “ceifa”? Acham poético chamar “ceifa” a um acto de vandalismo? Assim não chegam lá!

  4. Carlos says:

    Estou perplexo são contra violência contra seres vivos como dizem num dos últimos parágrafos mas parece que desde que esses seres vivos não sejam plantas transgénicas, deve ser esse o vosso limite (claro que isto é estar a dizer que na prática estão cheios de …).

    Quanto a só terem espatifado menos de 2% da área cultivada que eu saiba para não se provocar dano teriam que no mínimo indemnizar o agricultor no valor equivalente por vossa própria iniciativa.

    Imaginem que algumas pessoas embirravam com as vossas casas, as invadiam e depois de só lhes terem estragado 2% do respectivo conteúdo, saiam por livre iniciativa. Vocês não as defenderiam mesmo que por meios violentos e eles podiam alegar que não tinham praticado qualquer violência e até tinham saído por iniciativa própria, não creio. Não sei se se chamasse a GNR se ela teria sido tão cordata.

    Quanto a haver apoio de outras pessoas à vossa acção tal não pode ser justificação dos vossos próprios actos. Por muito meritórias que sejam as vossa razões estou em completo desacordo com a v. acção. Não chega só ter razão, numa democracia temos que convencer a maioria dessa mesma razão e não podemos, só porque o achamos conveniente, moldar as regras às nossas conveniências.

    A nossa liberdade termina quando começa a de terceiros.

  5. ... says:

    Oh Carlos e Agostinho… ve se começam a pensar ok

    vão ver o documentário “future of food” no video.google.com para terem uma ideia da parvoice que disseram